Por: Lorenzo Dornelles
Há uma certa ironia no fato de que uma banda formada quase por acaso, entre piadas internas e concertos improvisados, tenha acabado por criar um dos discos mais sérios e meticulosos deste início de 2026. Quando João Amorim (voz e composição), Manuel Dinis (guitarra) e João Campelo (baixo/teclas) se juntaram para dar corpo aos Nunca Mates o Mandarim, a ambição cabia num restaurante familiar.
“Demos dois ou três pequenos concertos num restaurante da tia dele… e sentíamos a necessidade de um mega guitarrista”, relembra Campello sobre o início de tudo. A solução estava próxima, numa figura que eles, entre risos, apelidaram de “John Mayer da Tuga”. Esse guitarrista era Manuel Dinis, a peça que faltava para transformar rascunhos em banda.

Trio formado na cidade do Porto por João Campello (bateria), Manuel Dinis (guitarra) e João Amorim (guitarra e voz) lançou o disco “Bola de Bilhar” no dia 9 de janeiro | Foto: Reprodução/Instagram
Se o EP de estreia, Para o Prazer, foi, nas palavras de Amorim, “um bocadinho mais irônico, divertido e brejeiro… tudo o que foi gravado num quarto”, o novo trabalho é o fim da brincadeira. Bola de Bilhar é a cartada de gente grande. “Não é fácil gravar, não é fácil gravar rápido” , desabafa o vocalista sobre as dores do processo independente que se arrastou desde 2023. Mas o resultado justifica a demora: “É sem dúvida um trabalho mais coeso, mais sério. Não acho que isso ainda seja a nossa maturidade, espero que não… mas é um passo”.
O acaso na mesa de jogo
Não se deixe enganar pelo título lúdico. O álbum é um exercício de narrativa onde a sorte e o azar são apenas o pano de fundo para histórias humanas densas. Curiosamente, o conceito não foi planejado. “Foi um bocado por acaso. Nós descobrimos naquelas músicas que havia um tema comum, que era o do jogo”, confessa Manel. “Eu não sou viciado em jogo… mas foi uma feliz coincidência”.
Dessa coincidência, nasceu uma sonoridade que a banda define como um “Venn diagram com três bolinhas e nós no meio”. No centro, a divindade comum: Jorge Palma. Nas pontas, a técnica de Manel, influenciada pelo “lirismo” do guitarrista japonês Masayoshi Takanaka, colide com a caneta afiada de Amorim.
O resultado é um som que engana pela leveza, enquanto a letra te puxa para a fossa.
Quando as cartas desabam
O exemplo crasso dessa dualidade é a faixa “Dominó”. A “explicação” sobre a canção chegou até a causar um desconforto na plateia, como conta Amorim. O jogo de peças é, na verdade, uma metáfora para a violência doméstica.
“Eu senti na plateia assim algum choque, alguma surpresa, até alguma repulsa… porque não parece que é sobre isso”, conta o vocalista, relembrando as listening parties em Lisboa. “A jogada do dominó é o abuso no namoro”.
A letra confirma o peso da tragédia, longe de qualquer diversão: “Se tu visses o que eu vi / Na escada do tribunal / Foi carrasco e foi juiz / Foi notícia de jornal” . Essa capacidade de storytelling permeia todo o disco. Em “Três Noites”, a banda sai do tribunal e vai para as ruas de uma cidade gentrificada, onde alguém “decalcou a cidade” apenas para dar de cara com o “império dos airbnb’s”. É a crônica de uma geração que vê o espaço urbano tornar-se cenário.


Fotos: Reprodução/Instagram
Brasil ainda é sonho (e matemática)
Embora os pés estejam fincados em Portugal, a cabeça dos Nunca Mates o Mandarim já se anima ao pensar em terras internacionais. “É sempre muito interessante já estarmos numa cena um bocado mais transatlântica, pessoalmente acho que é fenomenal”, diz Dinis.
A conexão musical vai de nomes de gigantes da MPB como Djavan e Chico Buarque a nomes do cenário atual da música brasileira como Tim Bernardes e O Terno e Zé Ibarra e Bala Desejo. A realidade logística, no entanto, ainda impõe barreiras. O Brasil aparece como o terceiro país que mais consome o som do trio, mas os números ainda são modestos para justificar uma travessia do oceano.
“Eu nunca fui ao Brasil…” admitem os três, com um misto de desejo e pragmatismo. Durante a entrevista, eles puxam os dados do Spotify for Artists em tempo real e a realidade vira piada interna. “No mês passado tivemos 252 ouvintes [em São Paulo]. Se calhar conseguíamos ir a São Paulo…. se toda a gente que nos ouve em São Paulo fosse”.
Por enquanto, um concerto em terras brasileiras é “inviável”, um sonho guardado para um futuro onde esses 252 se multipliquem.
