Veteranos e novos nomes da cena catarinense enfrentam barreiras financeiras e a falta de incentivo para transformar a arte em profissão
Por: Lucas Campos e João Ribeiro

Florianópolis é um paraíso turístico, diversas festas e baladas animam as noites e madrugadas da cidade. Apesar disso, artistas independentes de um gênero que está em ascensão, o rap, enfrentam desafios diários para realizar o seu sonho de viver de música. Diferente de outros centros urbanos do Brasil, onde o hip-hop tem uma estrutura mais consolidada, a capital catarinense oferece menos espaços para shows, estúdios de gravação e batalhas de rima. Apesar do cenário adverso, artistas independentes seguem lutando por melhores condições de trabalho.
Nomes como Colasni e Fal, dois importantes artistas do cenário do rap independente de Florianópolis, enfrentam dificuldades para equilibrar suas carreiras musicais com empregos convencionais, enquanto sonham em viver exclusivamente de suas músicas.
Fal: uma década de caminhada

Natural de Florianópolis, Fal se lançou de forma independente na música e se mantém autônomo até hoje. | Foto: Reprodução – Redes sociais
Gian Lucas Barboza é artista de rap há mais de dez anos em Florianópolis. Sob o nome artístico de Fal, o artista conta com diversas músicas lançadas de forma totalmente independente. Seus primeiros lançamentos oficiais foram em 2016, mas produz músicas desde 2014. Fal divide o seu tempo entre um emprego formal e a carreira artística.
Hoje com trinta anos, Fal esteve no movimento Hip Hop desde sua adolescência. “Sempre andei de skate e ia nas batalhas de rima, ficava na pista conhecendo pessoas que estavam dentro do movimento”.
A vontade de fazer música começou a sair do papel em 2014. Incentivado por amigos, Fal montou seu primeiro home Studio, um estúdio amador para gravação. “Deu pra comprar uns microfones e uma plaquinha, mesa de som, já tinha um computador na época meio mixuruca, mas já dava para gravar”. De forma autodidata, ele aprendeu a produzir e mixar as batidas (beats).
Em 2016, o artista lançou seu primeiro trabalho com mixagem e videoclipe.
Em 2018, Fal montou, junto de outros cinco artistas, seu coletivo: “Ubeco”. Inicialmente com amigos que partilhavam da paixão por música, o coletivo priorizava a singularidade de seus artistas, dando espaço para desenvolverem sua própria identidade musical. “Cada um tentava ajudar da maneira que dava. Todo mundo tinha a mesma ideia de tentar fazer a nossa arte juntos e prosperar com isso”.
O coletivo seguiu funcionando e lançando produções próprias até o início da pandemia de COVID-19 no Brasil, em 2020. Por conta do isolamento social e seus desdobramentos, a maioria dos artistas do coletivo acabaram se afastando momentaneamente da música, tornando o selo inativo. “Teve gente que teve filho, aí mudou totalmente o corre da caminhada”. Hoje, o rapper está reativando o selo, de uma forma mais profissional. Ele pretende continuar produzindo outros artistas, junto do seu sócio, ThiBitt.
Apesar das dificuldades financeiras, que para ele é o principal desafio de ser um rapper independente, ele afirma que a música para ele é algo natural e que hoje se vê no melhor momento de sua carreira.
“Tu precisa de dinheiro para fazer aquele lançamento musical, com videoclipe por exemplo. Mas, hoje, eu já tô mais maduro, já sei o que eu quero fazer, e como fazer. Para mim foi mais uma trajetória de conhecimento”

Atualmente, a “Ubeco” conta com dois artistas fixos: Fal e ThiBitt | Foto: Reprodução – Redes sociais
Colasni: a nova geração do rap na ilha

Com quinze mil visualizações apenas no Youtube, o single “últimas rimas de amor” é o maior sucesso solo do artista. | Foto: Reprodução – Redes Sociais
Nicolas faz rap há cinco anos. Sua vontade de se expressar e ser ouvido acabaram motivando o artista a iniciar sua carreira no rap. “Já montava vários sons, esboçando, fazendo rascunho, até que começou a chegar num resultado que eu falei: ‘Pô, acho que dá para começar a botar para rua esse tipo de trabalho que eu tô fazendo”.
Sua primeira música foi produzida por um amigo e lançada durante a pandemia. Adotando o nome artístico de Colasni (Nicolas de trás pra frente), ele vem escrevendo e lançando suas músicas de forma independente. Gravando suas músicas no estúdio Teto Preto, Colasni define o seu som como um rap cru e agressivo. Sua música tem forte inspiração no cenário americano do rap, principalmente no grupo Griselda e no artista Vince Staple.
Em setembro de 2024, Colasni lançou seu último EP, intitulado de “Sé é por esporte eu jogo o jogo, se é por amor eu já ganhei”.
“Minha ambição pelos próximos anos é conseguir realmente um público, uma base de fãs que me ouça. Ser chamado para me apresentar. Fazer shows é a minha maior dificuldade”.
O rapper divide a vida de artista com o trabalho, mesmo assim, está sempre tentando compor e pensar em novas maneiras de produzir sua arte. “Eu tento me dividir em dois assim mesmo. Acabou o expediente, agora eu tô focado em música. Minha cabeça tá sempre pensando na arte”.
Recentemente, o artista lançou mais um single. Intitulado de “Eu vou falar”, a música é uma produção totalmente independente.
A busca por espaço no cenário musical em Florianópolis

A “Batalha da Alfândega” é realizada todas as quintas-feiras, a partir das 19:00h | Foto: Marco Favero
Apesar de cada vez mais as casas de shows e baladas estarem abrindo as portas para o rap, para Fal, as oportunidades ainda são escassas em relação a outros estilos musicais. Muitos lugares ainda negam esse espaço ao artista. “As casas de shows não estão acostumadas a tocar rap. Geralmente as festas são mais conservadoras, não tem espaço para uma arte mais urbana”, explica Fal.
Nesse contexto, as batalhas de rima surgem como um espaço onde a cultura do hip-hop é fomentada. Esses eventos são um dos pilares da cena do rap, reunindo artistas e público em uma troca cultural, que vai além da competição se tornando espaços onde novos talentos surgem, desenvolvem suas habilidades e encontram um ambiente propício para divulgar o seu trabalho.
Realizada desde 2009, a Batalha da Alfândega é uma das mais tradicionais de Florianópolis. É realizada semanalmente no Largo da Alfândega. O espaço foi importante para a afirmação da cultura do hip-hop em Florianópolis, sendo um importante palco para discussão de pautas sociais e de celebração da cultura. Fal relata que, por conta desse viés político, o evento sofreu diversas repressões policiais em seus primeiros anos. “A batalha teve que mudar várias vezes de local por causa da polícia. Eles embargavam o eventos e acabava acontecendo alguns desentendimentos”.
Para o artista, hoje, as batalhas na cidade são mais socialmente aceitas e conquistam cada vez mais espaço na cultura urbana de Florianópolis. Com a crescente do movimento hip-hop na região, as batalhas também começam a ocupar mais espaços e se firmar como um importante pilar para a propagação de cultura na capital catarinense.
Editais
Outro desafio da cena do rap independente na capital catarinense é a escassez de editais que apoiem efetivamente os artistas da cultura urbana. Segundo Colasni, a difusão de informações sobre editais e projetos de apoio por parte da Prefeitura de Florianópolis é confusa e mal divulgada, dificultando o acesso desses artistas a recursos. “Não acho que falta incentivo, mas apesar de ter, é muito escondido. Quando você vai atrás, acaba tendo cada informação em um canto. Poderia ser mais organizado”.
No ano de 2025, poucos editais foram publicados e divulgados pelo Governo do Estado. Respectivamente, tiveram como data limite janeiro e fevereiro os editais como Pontos de Cultura-PNAB SC e o Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura. Apesar da boa oportunidade, ambos abordam a cultura em geral, e não apenas o rap.
Colasni destaca também que, apesar da importância do estímulo governamental por meio dos editais, o artista independente não pode se prender apenas a esse apoio. “Os editais ajudam muito, mas no fim das contas o importante é o público estar interessado no seu trabalho. O artista só vai viver da música se estiver na boca do povo”.
Perspectiva para o futuro

Colasni e Fal projetam um ano de grande crescimento de seus trabalhos.| Foto: Reprodução – Redes sociais
Os dois Mc’s acreditam que o gênero tem muito espaço para crescer em Florianópolis. Apesar do rap não ser um dos principais gêneros do país, Fal acredita que a cena do trap, uma das vertentes do rap, vive o seu melhor momento. Ele conta que artistas como Matuê e Teto já começam a figurar nas músicas mais ouvidas em plataformas de Streaming.
Mesmo com um cenário melhor do que era a dez anos atrás, Fal diz que as grandes festas da cidade ainda não enxergaram o potencial de artistas independentes. “Acredito que tem bastante gente que curte rap e que faz rap, mas que ainda não tem dinheiro para investir na sua carreira” , conta. Para ele, sem recursos financeiros a grande quantidade de artistas independentes não conseguem fazer o seu som sair do underground e chegar no público geral.
Tanto Fal quanto Colasni almejam viver apenas de música. “Eu quero viver 100% disso, e poder viajar e explorar outros ritmos musicais pelo mundo”, conta Fal.
